15 de outubro de 2012

CONTO DE PROFESSOR



A professora de desenho estava sem ideias para o próximo trabalho. Enquanto preparava a aula, pensava sobre o desenho e a escrita. Os alunos pareciam mais preguiçosos com o tempo. A preguiça, a habilidade de pensar e descrever perdiam o mérito. Todos sempre têm pressa de terminar a atividade. São tão rápidos, que jogam o lápis sobre a folha. Em poucos minutos, como um raio, atingem seu objetivo, terminam a tarefa. Então ela pensou em duas coisas. Hoje seria um dia diferente. Além de desenhar, deveriam escrever. E descrever. O tema: internet. Pensou em algo atual, para atrair os alunos. Na sequência, o desafio era a pauta do dia: descreva, não só desenhe.
À noite, sentou no seu escritório já cansada. Folheava os trabalhos, sempre com os mesmos desenhos. Pessoas sentadas em frente aos laptops, carregando ipads, quartos com objetos variados entre notebooks, telas e mais telas de computadores. Olhou sua pequena biblioteca, pensou em ler um livro. Os trabalhos apresentavam-se quase da mesma forma, quando se deparou com um diferente. Numa folha constavam dois desenhos: um prédio enorme e um aquário. Acompanhou atentamente os desenhos e logo depois as descrições.
No primeiro estava escrito: facebook. Um prédio enorme, como um espigão, cheio de janelas, tão alto que parecia encostar nas nuvens. Em cada janela, rostinhos representavam uma vizinhança recheada de carinhas, a observar o andamento da vida no prédio. Ao chegar em casa, a caixa de correspondência estava com algumas cartas e mensagens. Não existe greve. Sempre haverá algo para ler. Você não precisa se preocupar em decorar a casa, os vizinhos se encarregam de mandar fotos emolduradas e ideias decorativas. E ainda tem som, clipes de músicas volta e meia disponíveis.  Alguém vai sempre ter algo a comentar e direito a lhe cutucar. Os verbos curtir, seguir e compartilhar nunca foram tão usados. Quem mora nesse edifício tem que arcar com as consequências, senão escolha morar como um ermitão. E escolha uma ilha, mas não de computadores, bem longe da terra firme.
No segundo desenho tinha um aquário. Desses grandes, que as pessoas cuidam mesmo em casa. Lá estava escrito: msn. Peixinhos laranjas, verdes e vermelhos, com carinhas e bocas nadavam por lá. Na descrição dizia que os peixes circulam no aquário, como se fosse uma tela. Quando o sinal abre: verde. Eles estão disponíveis. Quanto aos peixes vermelhos, estes estão sem acesso. Sinal vermelho, estão ocupados. Os peixes ausentes são os de tom laranja. Mas não parecem tão ausentes assim. São curiosos. Eles estão escondidos entre as plantas do aquário. Mas quando sentem um chamado, chegam até a grande tela, saindo de seus esconderijos para se manifestarem. Ou ainda podem ficar tão transparentes quanto o vidro do aquário...offline.
A professora terminou de observar o trabalho. Olhou mais um tempo para os desenhos. Para as descrições. Enquanto guardava seu material, pensava na nota que daria a esse aluno.



Segue o blog...conto inspirado na sugestão do "dia do professor" da leitora Maria Elcira.

Um comentário:

  1. Muito legal.
    A Internet mudou totalmente o foco de vermos as coisas.

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