26 de dezembro de 2015

Um som no sábado

Pra curtir nesse sábado. É muito bom dizer algo ao som de um piano...




Com um toque de poesia, dedico este post a todos que conseguiram dizer alguma coisa e não desistiram ainda do amor...


"Carlos, sossegue, o amor
é isso que você está vendo:
hoje beija, amanhã não beija,
depois de amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém sabe
o que será."
Carlos Drummond de Andrade


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20 de dezembro de 2015

AMIGO SECRETO

CANECA DE NATAL

Era véspera de Natal e a famosa festa do amigo secreto da escola tinha um novo motivo. O combinado esse ano era de presentear o amigo com uma caneca, de qualquer cor ou estampa. Na hora da troca, havia uma caneca vermelha, cobiçada por muitos. Mas quem ficou com o presente foi um professor, que adoeceu e nem compareceu na festa. A mesma foi guardada no armário de louças da pequena cozinha da escola.
No dia seguinte, uma secretária daquele lugar, na hora do intervalo, comeu seu lanche e não resistiu. Naquela tarde saboreou um café com a tal caneca. Escondida dos colegas de trabalho, ela ficou por instantes pensando longe. Há um mês havia brigado com seu noivo, mas ele a convidou para jantar. Aqueles minutos solitários bastaram para ela se decidir. Aceitaria o convite e depois avaliaria a situação. Afastada da rotina da secretaria, do telefone e do atendimento, aqueles minutos do dia foram de grande valia para ela.
Mas, na semana seguinte, a caneca vermelha seguiu viagem na mala do professor. O rapaz conseguiu uma bolsa de um ano para especialização nos Estados Unidos. Ficou alguns dias negociando com sua própria consciência. Esta viagem mudaria tudo em sua vida. Ficaria por muito tempo afastado da família e dos amigos. Quando voltou à escola naquela manhã, com a desculpa de buscar seu presente, conversou com uma professora que teve a mesma experiência. Esta o animou muito a se aventurar e lhe mostrou os benefícios do curso. Aquela conversa foi crucial, saiu de lá decidido a colocar o pé na estrada, no mundo.
Então, lá se foi, ele e a caneca. Mundo afora, agora ela seria internacional. Viajaria para a “terra das canecas”, como vemos nos filmes americanos. Grandes cozinhas, com balcão, diferente das nossas.
Um dia o seu dono hospedou outro professor da escola, que passaria um mês na casa dele. O novo hóspede se apaixonou pela canequinha. Quando o dono da casa saia, ele saboreava um café, ouvindo música. Naquele local pensativo, ele resolveu várias coisas e tomou decisões. Quando nos afastamos da rotina, visualizamos de longe os problemas. Parece que a análise fica mais fácil. Suas lembranças então voaram para bem longe.
Um dia voltou ao Brasil e levou a caneca, como lembrança.
E lá se foi a vermelhinha viajante de volta a sua terra, a velha escola e ao armário de louças. Foi quando apareceu uma secretária que estava grávida. Tinha um desejo de tomar um café bem quentinho e comer pão de queijo com recheio de goiabada. Enquanto saboreava o lanche, reconheceu a caneca, que um dia absorveu seus pensamentos. Casou e estava esperando seu primeiro filho.
Como numa dança, de lá pra cá, de mão em mão. Nunca uma caneca fora tão cobiçada, dando prazer há muitos que se envolveram no atraente cheiro do café. Correu mundo, acompanhando desejos e novos caminhos. E na fumaça que ia subindo lentamente, desenharam-se vontades, sonhos e novas ideias. Em todos os momentos, ninguém trocaria a simples e companheira caneca, cúmplice de seus pensamentos, pela mais requintada xícara de porcelana.


#dicadepresente: presenteie seu amigo com uma caneca. Um dia um saboroso café contará uma história, aterrisando por lá.

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14 de novembro de 2015

Entre um café e outro...



Entre um café e outro, uma leitura e outra, encontro mais duas palavras para escrever este post e aumentar o meu dicionário da preguiça.
São elas: evolar e enlevar. São parecidas, parece que se enlaçam. Flutuam no ar, feito poesia. Dá vontade de decifrá-las.
Evolar é flutuar, voar. Uma música pode estar evolando suave no ar, por exemplo.
enlevar é prestar atenção, encantar, absorver, maravilhar-se, cativar.
Exemplo: As obras orquestrais e sinfonias enlevam grandes plateias.


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12 de novembro de 2015

Depois do café: um sorriso







Era uma tarde como essa, muito quente, como muitas sentidas nas primaveras de Porto Alegre ou Poa. Tardes de Feira do Livro. Mas Poa sem acento. Se colocá-lo, fica Poá e esta tarde se transfere para um município do estado de São Paulo, com suas ruas estreitas, praças e muita história para contar. Considerada uma estância hidromineral, a cidade de Poá foi antigamente ponto de parada de tropeiros e viajantes que dirigiam-se à Mogi das Cruzes. Poá é uma palavra de origem indígena, abreviatura de ipiá, que significa "bifurcação de caminhos". Descobri por acaso. Uma vez, coloquei Poa no remetente de uma carta de amor endereçada ao Paraná e o candidato perguntou se eu havia mudado para perto dele. Respondi que a questão era de acentuação. E talvez de limites geográficos...
Mas voltando ao conto. No final da tarde, depois de minha rotina diária trabalhística e após muitos cafés, entrava em casa e lá estava minha diarista. Passando roupas. Camisas. E rindo. Voltava cansada do trabalho, pensando pela rua em alguns problemas e encontrava aquele sorriso. Até hoje me pergunto por que Neli ria tanto ao passar roupa. Principalmente camisas. Enquanto conversava comigo, dava uma parada e continuava a passar. Espichava o ferro na roupa e sorria. Uma gargalhada comprida. Um riso que vinha de mansinho e explodia de repente. 
Hoje, enquanto passo roupa, penso naquela cena de outros tempos. Decerto porque passar roupa faz a gente pensar. Divagar. E tento encontrar a resposta. Enfim, depois de uma longa tarde escaldante, com suor na testa, conclui que ela amenizava os problemas com o riso. Neli ria da vida.



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6 de novembro de 2015

Divagação de sexta sem café: nossos ídolos




Caminho tranquilamente pela Feira do Livro de Porto Alegre. Escolho a fila para receber um autógrafo. Penso em livros e em passar antes na cafeteria, quando avisto meu ídolo, o músico preferido. É muito estranho e emocionante quando enxergamos tal pessoa. Nossos ídolos. As mãos tremem. Se a xícara de café estivesse nelas teria trepidado. A situação fica complicada. Dá um branco, como dizem. Queremos raciocinar rápido, não perder nenhum grão do precioso tempo. Mas parece que nada dá certo. Incrível como uma pessoa como tantas transforma-se numa preciosidade. E isso não tem explicação. E as coisas que não tem motivo, coisas que acontecem do nada, são as melhores, as mais espontâneas e verdadeiras. Desprovidas de poluição ou qualquer sentimento diferente que as estrague. E então, seguindo meus instintos e movimentos, automaticamente pego o celular e registro o momento, vendo mais tarde que a foto saiu tremida...



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14 de setembro de 2015

Momento translúcido na cafeteria


Ela caminha entre as folhas secas da calçada até à cafeteria.Tudo nublado em sua volta. A neblina toma conta da cidade de Porto Alegre naquela manhã. O colorido dos letreiros e o cheiro do café a atraem para a lancheria do posto. Tudo amanhece translúcido. Escolhe uma mesa bem no centro do espaço para lanches. Só queria tomar um café. O cheiro do pão de queijo invade o ambiente. Mais um aroma tentador. Mais um pedido para acompanhar o café. Ela olha para a paisagem lá fora. Parece cena de filme. De mistério. Quase um fog londrino na sua imaginação. Câmera. Claquete. Ação. Ali pode começar uma história de mistério ou de amor. De felicidade. Mas de felicidade da boa, não complicada. A vida é simples. Uma pessoa aproxima-se no cenário indefinido e entra na cafeteria. Quando o sol aos poucos ocupar seu lugar na manhã daquele dia qualquer, pode aparecer outra pessoa. E mais outra. O mundo está povoado de pessoas que não conhecemos. Todas entram na cafeteria, sentam para sorver o café e o pensamento voa longe, enquanto olham seus celulares. Cada um deve ter uma história, ainda não narrada e nem contada. 
Nesse momento o som do whatsapp acusa uma chamada. Ela observa a tela. Dá um toque de leve. Um diálogo. Um sorriso. Uma resposta. O momento se desconserta. E esquece por segundos do café...




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13 de setembro de 2015

Ainda o café...na minha paisagem

   

O café é tão grave, tão exclusivista, tão definitivo
que não admite acompanhamento sólido. Mas eu o driblo,
saboreando, junto com ele, o cheiro das torradas-na-manteiga
que alguém pediu na mesa próxima.

(Mario Quintana)


E ainda...

O mar à beira do qual eu nasci,/ O mar que desde menino me pôs nas veias a inquietação”, ou “brinquei de pegador entre vagões das docas./ Os grãos de café, perdidos no lajedo/ eram pedrinhas que eu atirava noutros meninos...”
(Rui Ribeiro Couto)
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